AVISOS DO CÉU... NAS APARIÇÕES DE JACAREÍ
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AS APARIÇÕES DE JACAREÍ - MENSAGENS CELESTES
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A Substância do Amor - S. Hugo de São Vitor

Hugo de São Vítor

Hugo de São Vitor

A SUBSTÂNCIA DO AMOR

Inst. in Decalogum Legis Dominicae
C. 4, PL 176, 15-18;
Miscelannea L. I C. 171,
PL 177, 563-565 *

1. Introdução. Os dois rios do amor.

Semeamos cotidianamente um sermão sobre o amor para que possa faiscar e acender-se em nossos corações aquele fogo que produz a chama que tudo consome e tudo purifica.

Tudo o que é bom o é pelo amor, e tudo o que é mau o é também pelo amor. Uma só é a fonte do amor que, subindo do interior, derrama-se em dois rios: um destes rios é a cobiça, o amor do mundo; o outro é a caridade, o amor de Deus. Entre ambos estes rios está o coração do homem, de onde jorra a fonte do amor. Quando este se derrama pelo apetite às coisas exteriores, é chamado de cobiça; quando o seu desejo, porém, se dirige às coisas interiores, é denominado de caridade.

Há, portanto, dois rios que emanam da fonte do amor, a cobiça e a caridade, e a cobiça é a raiz de todos os males, enquanto que a caridade é a raiz de todos os bens. É pelo amor que tudo o que é bom é bom e é pelo amor que tudo o que é mau é mau. O que quer que seja o amor, portanto, coisa grande é quando está em nós. Por ele é tudo o que há em nós: isto é o amor.

O que é o amor, quão grande é o amor, e onde está o amor?

A Palavra de Deus fala de amor. Não vos parece, porém, que este assunto pertença mais propriamente aos que costumam prostituir o seu pudor? Eis quantos são os que abraçam prontamente o seu ministério, e eis quão poucos são os que não se envergonham de falar abertamente de suas palavras! Que fazemos nós, portanto? Teríamos talvez tão pouco pudor que não nos envergonhamos de proclamar este amor que até os impúdicos às vezes não conseguem exprimi-lo sem vergonha?

Mas uma coisa, porém, é investigar o vício para que seja erradicado; outra exortar ao vício, para que a virtude e a verdade não sejam amadas. Nós investigamos e buscamos conhecer o que há em nós que divide de tantas maneiras nossos desejos e conduz um só coração a coisas tão diversas para que, conhecendo-o, possamos nos precaver, enquanto que eles investigam este mesmo assunto também para conhecê-lo, mas para que, conhecendo-o, possam não se precaver, mas praticá-lo. Esta coisa nada mais é do que o amor o qual, sendo um movimento do coração singular e único segundo a sua natureza, é, todavia, segundo a ação, dividido, pois quando se move desordenadamente, isto é, ao que não deve, é dito cobiça; quando, porém, o faz ordenadamente, é chamado de caridade.

Com que definição poderá ser significado este movimento do coração ao qual chamamos de amor? É importante que nós o examinemos adequadamente, para que nada dele fique escondido e desconhecido e, para que, por este motivo, não seja evitado sendo mau e não seja apetecido sendo bom, justamente este amor do qual, sendo mau, procedem tantos males e do qual, sendo bom, procedem tantos bens.

2. O que é o amor.

Como definiremos o amor? Investiguemos, consideremos, porque é oculto o que se busca e quanto mais interiormente estiver colocado tanto mais dominará em todas as partes do coração.

Isto, portanto, parece ser o amor: uma deleitação de um coração a algo por causa de algo, que é desejo ao apetecer, gozo ao fruir, que corre pelo desejo e repousa pelo gozo. Por ele o coração humano é bom, e por ele também o coração humano é mau; pois nem de outro modo será bom, se é bom, nem de outro modo será mau, se é mau, senão porque bem ou mal amamos o que é bom. Tudo o que é, é bom, mas quando aquilo que é bom é mal amado, isto não é bom e é mau. Nem quem ama é mau, nem o que é amado é mau, nem o amor pelo qual se ama é mau, mas amar mal é mau e nisto consiste todo o mal.

Ordenai, pois, a caridade, e já não haverá mais nenhum mal.

3. O plano de Deus.

Grande coisa queremos recomendar, se todavia pudermos o que queremos.

Deus onipotente, que de nada necessita, porque Ele é o sumo e verdadeiro bem, o qual nem pode receber de outrem algo pelo qual cresça, já que todas as coisas provém dEle, nem pode perder algo do que é seu pelo qual venha a morrer, já que nEle imutavelmente consistem todas as coisas, Ele mesmo criou o espírito racional apenas pela caridade, movido por nenhuma necessidade, para que o fizesse participante de sua própria bem aventurança.

Para que ele, porém, fosse capaz de fruir de tanta bem aventurança, fêz nele o amor espiritual, um certo paladar do coração pelo qual este fosse sensibilizado ao gosto da doçura interior, na medida em que por este amor saboreasse a alegria de sua felicidade e a Ele inerisse por um infatigável desejo. Pelo amor, portanto, Deus uniu a si a criatura racional para que, sempre inerindo a Ele, dEle sugasse de algum modo pelo afeto o próprio bem pelo qual seria beatificado, dEle o bebesse pelo desejo e nEle o possuísse pelo gozo.

Suga, ó pequena abelha, suga; suga e bebe a inenarrável suavidade de tua doçura. Submerge-te e plenifica-te, porque Ele não pode falhar se tu não começares a te enfastiar. Adere e inere, toma e frui; se o gosto for sempiterno, sempiterna será também a bem aventurança.

Não nos envergonhemos e não nos arrependamos de ter feito esta palavra de amor; não nos arrependamos de onde procede tanta utilidade, não nos envergonhemos de onde procede tanta honestidade.

4. Os dois cordéis da caridade.

A criatura racional, portanto, une-se ao seu Criador pelo amor, e só há este vínculo de amor que liga nele a ambos, vínculo tanto mais feliz quanto mais forte.

Por este motivo, para que a indivisa sociedade e concórdia também fossem perfeitas, há um duplo cordel na caridade de Deus e do próximo, para que pela caridade de Deus todos co-inerissem a um só, e pela caridade do próximo todos se fizessem mutuamente um só. Deste modo, o que alguém em si mesmo não entenda deste um só ao qual todos inerem, mais plena e perfeitamente poderá possuí-lo no outro pela caridade do próximo, e assim o bem de todos pode-se tornar o todo de cada um. Ordenai, portanto, a caridade.

O que significa `ordenai a caridade'? Significa que, se o amor é desejo, que corra bem; se é gozo, que repouse bem. O amor, de fato, conforme já foi dito, é a deleitação de um coração a algo por causa de algo, desejo ao apetecer e gozo ao fruir, correndo pelo desejo e repousando pelo gozo, correndo a algo e nele repousando.

Ao que, porém, e em que?

5. A ordenação da caridade.

Ouvi, se talvez o pudermos explicar, pelo que deve correr o nosso amor, ou em que deve repousar.

Três coisas há que podem ser amadas bem ou mal, isto é, Deus, o próximo e o mundo.

Deus está acima de nós, o próximo está junto a nós, e o mundo está abaixo de nós.

Ordenai, portanto, a caridade. Se corre, que corra bem; se repousa, que repouse bem. O desejo corre, o gozo repousa. Por este motivo o gozo é uniforme, porque sempre está em um só, nem pode variar pela vicissitude; o desejo, porém, recebe a mutabilidade do movimento e, portanto, não se contém em um só, mas apresenta várias espécies.

Toda corrida é ou daquilo que é, ou com ele ou para ele. Como, portanto, deve correr o nosso desejo?

Existem três coisas, Deus, o próximo e o mundo. Deus pode ter três coisas na corrida de nosso desejo, o próximo pode ter duas e o mundo apenas uma. Deste modo pode haver caridade ordenada no desejo.

O amor pode correr ordenadamente pelo desejo de Deus, com Deus e a Deus. Corre pelo desejo de Deus, quando dEle recebe de onde o ame. Corre com Deus, quando em nada contradiz à sua vontade. Corre a Deus quando apetece nEle repousar. Estas são as três coisas que pertencem a Deus.

Já duas são do próximo. A caridade pode correr pelo desejo do próximo e com o próximo, mas não o pode ao próximo. Corre pelo desejo do próximo quando se alegra de sua salvação e de seu aproveitamento. Corre com o próximo quando na via de Deus o deseja como companheiro de caminho e como sócio em seu encontro. Mas não pode correr ao próximo, para que constitua no homem a sua esperança e confiança. Estas são as coisas que pertencem ao próximo; isto é, dele e com ele, mas não a ele.

Uma só coisa pertence ao mundo, que é correr recebendo dele; não com ele, nem a ele. O desejo, de fato, corre recebendo do mundo quando este, examinado como obra de Deus, pela admiração e pelo louvor nos converte mais ardentemente a Deus. O desejo correria com o mundo se o mundo, por causa da mutabilidade das coisas temporais, nos conformasse a si pelo desânimo na adversidade e pela elevação na prosperidade, e deste modo a ele nos tornássemos semelhantes. O desejo correria ao mundo se quisesse sempre repousar em seus prazeres.

Ordenai, portanto, a caridade, para que ela corra pelo desejo de Deus, com Deus e para Deus; pelo desejo do próximo, com o próximo mas não ao próximo; recebendo do mundo, mas não com ele e nem para ele, para que assim somente em Deus repouse pelo gozo.

Esta é a ordenada caridade, e fora dela tudo o que se faz não é caridade ordenada, mas cobiça desordenada.

6. O amor, vida do coração.

O amor é a vida do coração e, portanto, sem amor é inteiramente impossível que haja um coração que deseje viver.

Considera o que se segue daqui.

Se, de fato, a mente humana não pode existir sem amor, é necessário que ame ou a si mesma ou a algo além de si mesma.

Como, porém, em si mesma não pode encontrar o perfeito amor, se se amasse apenas a si mesma o amor feliz não existiria.

É necessário, portanto, se desejamos amar com felicidade, que busquemos algo além de nós a que amemos. Se começarmos a amar, porém, algo imperfeito fora de nós, estimularemos em nós o amor, mas não excluiremos a nossa miséria.

Ninguém amará, portanto, com felicidade, até que o seu desejo não se converta pelo amor ao verdadeiro e sumo bem.

Como, porém, somente Deus é o verdadeiro e sumo bem, amará com felicidade apenas quem amar a Deus, e com tanta maior felicidade quanto mais amplamente o amar.

Este, portanto, será o verdadeiro repouso de nosso coração, quando nos estabelecermos pelo desejo no amor de Deus, nem mais nada além dEle apetecermos mas, nEle já possuído, nos deleitarmos por uma feliz segurança. Como Ele não estende o apetite para além dEle, nem repele pelo temor, assim de certo modo nEle repousamos por uma felicidade sem vexação.

A enfermidade da mente humana porém, não direi sempre, mas algumas vezes, dificilmente pode fixar-se na doçura da divina contemplação. Por este motivo, enquanto não o consegue, deve ser acostumada por um certo estudo àquela estabilidade a qual ainda não é capaz de alcançar. Isto é, se não podemos pensar sempre em Deus, que pelo menos reprimamos nosso coração dos pensamentos ilícitos e vãos, para que o possuamos na consideração das suas obras e de suas maravilhas, até que, enquanto nos esforçarmos em ser sempre menos instáveis, finalmente, no-lo concedendo Deus, sejamos capazes de nos tornar verdadeiramente estáveis.

7. A fé, navio nas ondas deste mundo.

Procurarei oferecer-te um exemplo para que possas promover estas coisas.

Todo este mundo é como um dilúvio, porque todas as coisas que estão neste mundo, à semelhança das águas, correm flutuando por eventos incertos.

Já a verdadeira fé, que não promete coisas transitórias, mas eternas, levanta a alma como que de certas ondas, erguendo-a da cobiça deste mundo às coisas do alto; ela pode então ser levada pelas águas, mas não pode ser inteiramente submergida, porque este mundo pode ser usado devido à necessidade, mas não pode obrigar o afeto.

Quem quer que, portanto, não crendo nas coisas eternas, somente apetece as que são transitórias, debate-se entre ondas como que sem navio, e o ímpeto das águas que correm o carregam consigo. Quem , porém, crendo nas eternas, ama as coisas transitórias, este é como aquele que naufragou perto de um navio. Já quem crê nos bens eternos e os ama, como que já colocado no navio, atravessa seguro as ondas do mar revolto. E se pelo desejo da fé não abandonar o navio, de certo modo, ainda que no meio das ondas, imita a estabilidade da terra.

Em primeiro lugar, portanto, se quisermos atravessar ilesos este grande mar, fabriquemos um navio, de tal maneira que tenhamos uma fé íntegra. Habitemos depois o navio da fé pela caridade, para que creiamos o que devemos amar e amemos o que cremos, de modo que assim tanto a lei de Deus esteja em nosso coração pelo reto conhecimento da fé como o nosso coração esteja na lei de Deus pelo amor.

Mas para que mais facilmente conheças como ou de onde deves edificar este navio ou arca em teu coração pelo qual, conduzido em meio ao naufrágio deste dilúvio, chegues ao porto da quietude, considera as duas obras de Deus que são a obra da criação e a obra da restauração.

A obra da criação é a criação do céu e da terra e de todas as coisas que neles estão contidas, as quais foram feitas em seis dias.

Já a obra da restauração é a Encarnação do Verbo e todas as coisas que, desde o princípio do mundo até o seu fim, tanto a precederam para anunciá-la como a seguiram para confirmá-la. Estas todas se fizeram ao longo de seis idades.

A obra da restauração mais pertence à fé católica, a qual por isto é mais amada pelos santos, porque nela reconhecem os remédios para a sua salvação. Deus operou esta obra em parte pelos homens, em parte pelos anjos, em parte por si mesmo, de tal maneira que na arca espiritual a primeira morada são as obras dos homens, a segunda as obras dos anjos, a terceira as obras de Deus, e nela o supremo repouso é o próprio Deus, autor de todas.

 

***

NOTAS SOBRE A PEDAGOGIA
DE HUGO DE SÃO VITOR




 

1. Época de Hugo de São Vitor.

 

Hugo de São Vitor nasceu na Saxônia, que hoje faz parte do território da Alemanha, no ano de 1096. Ainda jovem sentiu a vocação religiosa e mudou-se para Paris com a intenção de ingressar no Mosteiro de São Vitor, no qual residiu até a sua morte em 1141. Ele viveu, portanto, na primeira metade do século dos anos 1100.

A época em que viveu Hugo de São Vitor foi uma das mais importantes da história da civilização ocidental, pois foi nela que começaram a se organizar as nações que hoje fazem parte da Europa.

Mil e cem anos antes da época de Hugo, quando nasceu Jesus Cristo, não existiam Inglaterra, França, Alemanha, Portugal nem tantos outros países da Europa. Na época de Cristo a Europa, o norte da África e o Oriente Médio constituíam um todo conhecido como Império Romano. A ausência de fronteiras e as facilidades de comunicação dentro de um império tão grande muito auxiliou para que o cristianismo se propagasse mais facilmente por todo o mundo civilizado daquele tempo.

Entretanto, a partir dos anos 400 e durante vários séculos que se seguiram, muitas hordas de bárbaros provenientes da Europa Oriental e do interior da Ásia passaram a invadir o território do Império Romano que acabou aos poucos se esfacelando. Embora tivesse havido algumas épocas de calma, as invasões e as desordens que resultaram delas só puderam começar a ser definitivamente controladas, possibilitando a organização daquelas que são as atuais nações da Europa, na época de Hugo de São Vitor. Entre o ano 1100, próximo ao nascimento de Hugo, e o ano 1300, próximo à morte de Santo Tomás de Aquino, houve um extraordinário renascimento da civilização na Europa em todos os aspectos, incluindo a vida religiosa, a teologia e a educação. Pertencem a este período da história as vidas de São Francisco de Assis e de São Domingos.

No início deste período, no ano 1100, São Vitor era o nome de uma capelinha situada nos arredores de Paris e freqüentada por pessoas que vinham, longe do tumulto da cidade, consagrar algum tempo à meditação e à oração. Em 1108, com o fim de melhor poder dedicar-se às coisas de Deus, um sacerdote professor da escola anexa à Catedral de Notre Dame, chamado Guilherme de Champeaux, transferiu-se para lá junto com vários de seus alunos. Mesmo residindo em São Vítor, Guilherme continuou sendo procurado, não só pelo seu exemplo, como também pelos seus ensinamentos, que não deixou de ministrar. Assim surgiu ali o mosteiro de São Vítor.

Quando Hugo pediu para ser admitido no mosteiro de São Vitor, Guilherme já não residia mais nele. Tinha sido promovido a bispo e havia deixado outros em seu lugar, encarregados do governo do mosteiro. Algum tempo depois a tarefa de organizar a escola de Teologia anexa ao mosteiro seria confiada a Hugo de São Vitor.

Raras vezes na história humana uma escolha pôde ter sido tão feliz. No mosteiro organizava-se uma grande biblioteca que daria acesso a Hugo ao que de melhor havia sido escrito pela tradição cristã. A fama de São Vitor já havia atravessado as fronteiras e espalhava-se por toda a Europa; ela trazia ao mosteiro, de todas as partes, estudantes de notável talento, como tinha sido o caso do próprio Hugo, que para lá se tinha dirigido proveniente do Sacro Império Germânico, de Ricardo de São Vitor, que ali chegou proveniente da Escócia, e de Pedro Lombardo, que vinha do norte da Itália encaminhado por São Bernardo. Já é coisa rara que um talento da envergadura de Hugo, homem de inteligência brilhante, santidade manifesta e notável vocação docente se veja diante de tantos e tão excelentes recursos materiais e humanos; mais raro ainda é que alguém nestas condições se veja encarregado de, além de ensinar, organizar também a escola. Esta tarefa suplementar obrigou Hugo adicionalmente a explicar aos alunos como se deveria estudar, aos professores como se deveria ensinar e à escola como se deveria organizar, e isto não para obter algum diploma, que naquela época ainda de nada valiam, mas para, a partir de um sólido conhecimento das Sagradas Escrituras e das obras dos Santos Padres, empreenderem a busca da santidade. O conjunto da obra de Hugo de São Vitor mostra que ele elaborou um sistema de Pedagogia em que o estudo de torna um instrumento de ascese em perfeita consonância com os ensinamentos do Novo Testamento a respeito da fé, da graça e da oração, da necessidade da graça para a prática das virtudes e dos frutos que se esperam do desenvolvimento da vida espiritual.

Hugo de São Vítor mostrou, em suma, como se organiza o estudo, o ensino e a escola para que, sem deixar de ser uma escola, nem perder nenhuma das características que tradicionalmente se atribuem a uma escola, ela tenha como meta a santidade. Esta meta não é algo acrescentado ou justaposto ao que já seria a escola, mas é aquilo que dita a própria essência de sua organização e de seus métodos.

Hugo mostrou ainda que se isto pode ser possível, é porque esta é a verdadeira e legítima finalidade da escola. São as outras escolas, e não esta, que representam um desvio do verdadeiro ideal do ensino.

 

 

 

2. A pedagogia vitorina.

 

Uma das características marcantes da pedagogia moderna consiste no ter ela conseguido dissociar, cada vez mais profundamente ao longo dos últimos 700 anos, o estudo da busca de Deus.

Em sua época, Hugo de São Vitor organizou o estudo como um instrumento de ascese cristã a ser utilizado conjuntamente com os demais meios para o desenvolvimento da vida do espírito. Quatrocentos anos mais tarde, na época da Renascença, com o advento da educação a que se chamou de humanista, o estudo passou a ser utilizado somente como instrumento para a formação do caráter; se as escolas religiosas ainda orientavam os alunos a respeito da vida espiritual, esta orientação era algo paralelo ou acrescentado à escola e não tinha mais relação necessária com o estudo nela desenvolvido pelos alunos.

Mais recentemente, principalmente nos dois últimos séculos, abandonou-se também o espírito da educação humanista e o objetivo mais importante do sistema escolar deixou de ser a formação do caráter do aluno para se tornar a aquisição de determinadas habilidades úteis para a sociedade ou exigidas pelo mercado de trabalho. A formação do caráter passou a ser buscada, de modo principal, indiretamente através da aquisição e do exercício destas habilidades. No mundo moderno, de fato, não é um conhecimento profundo da natureza humana que determina como a escola deve ser organizada, mas são as diferentes políticas de desenvolvimento e as diversas necessidades do mercado de trabalho que exigem um determinado número de profissionais habilitados que ditam as orientações das políticas educacionais.

Na educação vitorina, porém, o estudo é organizado de tal modo que se torna parte integrante da ascese cristã. O estudo e a ascese não são atividades independentes nem paralelas. Ao contrário, uma coisa faz parte da outra, a tal ponto que este pode ser corretamente identificado como um dos elementos que distingüem o que se pode chamar de espiritualidade vitorina, uma determinada forma de desenvolvimento da vida cristã que inclui dentro dela a pedagogia, e que pode se desenvolver, como em um lugar próprio, em uma escola.

Não é possível expor em poucas páginas a pedagogia vitorina, porque ela não se encontra apenas nos textos especificamente dedicados por Hugo de São Vitor a este assunto, mas está também espalhada em toda a sua obra, freqüentemente entrelaçada com princípios de Filosofia e Teologia que pervadem não só os seus escritos como também os de seu discípulo Ricardo de São Vitor, cuja obra, juntamente com a de Hugo, forma um só conjunto.

Sendo assim, o que examinaremos em seguida, embora faça parte da pedagogia de Hugo de São Vitor, não é um resumo da pedagogia vitorina, mas apenas um apanhado de algumas observações retiradas de suas obras, das quais ele se utilizava para orientar aqueles que tinham a intenção de se dedicar ao estudo da Ciência Sagrada no intuito de buscarem a Deus.

 

 

 

3. O estudo na pedagogia vitorina.

 

Vamos examinar mais extensamente o nono capítulo do Quinto Livro do Didascalicon, em que Hugo de São Vitor explica a função do estudo dentro do conjunto da vida espiritual, como ele deve coordenar-se com os demais meios de perfeição, qual a relação que ele tem para com o papel da graça e como ele se ordena, através da oração, à contemplação.

Na maioria das escolas modernas a finalidade da atividade do aluno é a apreensão do conteúdo de uma determinada disciplina tal como é exposta pelo professor. Se a escola conseguir, além disto, motivar o aluno a estudar por si mesmo e mais profundamente aquilo que o professor expôs, pode-se considerar o ensino ministrado por esta escola como sendo de alta qualidade.

O texto abaixo de Hugo de São Vitor mostra, no entanto, que a atividade da escola vitorina começa precisamente aí onde terminam as aspirações da escola moderna. Motivar o aluno para o estudo não é o objetivo da pedagogia vitorina, mas o seu ponto de partida. Segundo Hugo de São Vitor o estudo, enquanto tal, ele próprio se ordena a uma série de outras atividades do espírito, e todas estas, por sua vez, se ordenam, mediante o auxílio da graça, como ao seu fim, ao que se chama de contemplação. No entender de Hugo de São Vitor, portanto, a função da escola inclui muitas mais coisas do que apenas o estudo, embora seja organizada de tal modo que, no que depende dela, o estudo seja a origem de todas.

 

Texto de Hugo de São Vitor.
Dicascalicon, L.V, C.9.

 

"Há quatro coisas nas quais se exerce a vida dos santos, que são como degraus pelos quais se elevam à futura perfeição. São estes:

 
  • o estudo, ou doutrina;
  • a meditação;
  • a oração;
  • a ação.
 

Há ainda uma quinta que se segue destas, que é a contemplação, que é, de certo modo, o fruto destas quatro primeiras. Na contemplação temos antecipadamente já nesta vida a futura recompensa das boas obras. Foi por isto que o salmista, falando dos preceitos de Deus e recomendando-os, logo em seguida acrescentou:

"Grande é a recompensa
para os que os observarem".

 
Salmo 18

Destes cinco graus que falamos, o primeiro, isto é, a leitura, pertence aos principiantes. O maior de todos, isto é, a contemplação, pertence aos perfeitos. Quanto aos intermediários, será mais perfeito aquele que os tiver subido em maior número. Em outras palavras, o primeiro, isto é, a leitura, dá a inteligência. O segundo, a meditação, fornece o conselho. O terceiro, a oração, pede. O quarto, a ação, busca. O quinto, a contemplação, encontra.

Se, portanto, lês, ou estudas, e tens por isto a inteligência e conheceste o que se deve fazer, isto já é princípio do bem, mas ainda não te será suficiente, não és perfeito ainda.

Sobe, pois, na arca do conselho, e medita como poderás realizar aquilo que aprendeste através da leitura e do estudo que deve ser feito. De fato, houve muitos que possuíram a ciência, mas poucos foram aqueles que souberam de que modo era importante saber.

O conselho do homem, porém, sem o auxílio divino, é enfermo e ineficiente. É necessário, pois, levantar-se à oração, e pedir o seu auxílio, sem o qual nenhum bem pode ser feito; isto é, a sua graça, a qual, antes que tivesses chegado até aqui para pedí-la era ela que já te iluminava, e daqui para a frente será quem haverá de dirigir os teus passos para o caminho da paz, e de cuja única boa vontade depende que sejas conduzido ao efeito da boa obra.

Resta agora para ti que te prepares para a boa ação, de tal maneira que aquilo que pedes na oração mereças receber pela obra, se Deus consigo quiser operar. Não serás obrigado, serás ajudado. Se apenas tu operares, nada realizarás; se apenas Deus operar, nada merecerás. Opere Deus para que tu possas; opera tu para que algo mereças. O caminho pelo qual se vai à vida é a boa obra, e aquele que corre por este caminho busca a vida.

Conforta-te e age virilmente. Esta via tem o seu prêmio. E quantas vezes, fatigados pelos seus trabalhos, não somos ilustrados do alto pela graça, saboreando e vendo

"quão suave é o Senhor".

 
Salmo 33

Assim se realiza o que dissemos acima, que aquilo que a oração busca, a contemplação encontra".

 
 

4. Conselhos diversos ao estudante.

 

a) O estudante deve ser humilde.

 

A humildade, diz Hugo de São Vitor, é o princípio do aprendizado. O estudante que desde o início não é movido pela humildade, nunca alcançará a sabedoria. Vamos examinar, a este respeito, a introdução do Opúsculo sobre o Modo de Aprender:

"A humildade",

diz Hugo de São Vítor,

"é o princípio do aprendizado,
e sobre ela, muita coisa tendo sido escrita,
as três seguintes, de modo especial,
dizem respeito ao estudante.

A primeira é que não tenha como vil
nenhuma ciência e nenhuma escritura.

A segunda é que não se envergonhe
de aprender de ninguém.

A terceira é que,
quando tiver alcançado a ciência,
não despreze aos demais.

Muitos se enganaram por quererem parecer
sábios antes do tempo,
pois com isto se envergonharam
de aprender dos demais o que ignoravam.

Tu, porém, meu filho,
aprende de todos de boa vontade
aquilo que desconheces.
Serás mais sábio do que todos,
se quiseres aprender de todos.

Nenhuma ciência, portanto, tenha como vil,
porque toda ciência é boa.
Nenhuma escritura, ou pelo menos,
nenhuma lei desprezes, se estiver à disposição.
Se nada lucrares, também nada terás perdido.

Diz, de fato, o Apóstolo:

"Omnia legentes,
quae bona sunt tenentes" .

 
I Tes 5

 

O bom estudante deve ser
humilde e manso,
inteiramente alheio aos cuidados do mundo
e às tentações dos prazeres,
e solícito em aprender de boa vontade de todos.

Nunca presuma de sua ciência;
não queira parecer douto, mas sê-lo;
busque os ditos dos sábios,
e procure ardentemente ter sempre
os seus vultos diante dos olhos da mente,
como um espelho".

 

b) O que é a humildade.

 

A humildade, segundo Hugo de São Vítor, coincide com a primeira bem aventurança, aquela da qual Jesus dizia:

"Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus",

 
Mat. 5,3

e que é o ponto de partida da vida cristã. Sobre esta passagem diz Hugo de São Vitor:

"Bem aventurados os pobres de espírito,
porque deles é o Reino dos Céus:
há os que são ricos de espírito,
e há os que são pobres de espírito.
Os ricos de espírito são os soberbos;
os pobres de espírito são os humildes".

 
Allegoriae Utriusque
Testamenti, NT. II, 1

 

 

c) Renúncia.

 

Disse Jesus que quem não renuncia a si mesmo não poderia ser seu discípulo. Não era outro o objetivo dos alunos de Hugo de São Vitor senão serem discípulos de Cristo, aprenderem o que é o Evangelho, como se o vive e como se pode ensiná-lo aos outros. Assim também Hugo fêz exigências similares às de Cristo aos seus estudantes. O estudante que desejar elevar-se até Deus deve ser, conforme já vimos,

"humilde e manso,
inteiramente alheio aos cuidados do mundo
e às tentações dos prazeres,
solícito em aprender
de boa vontade de todos".

 

 

d) Buscar em primeiro lugar a verdade.

 

"É necessário também",

diz Hugo de São Vitor,

"que aquele que tiver iniciado este caminho
procure aprender nos livros em que estudar
não apenas pela beleza do fraseado,
mas também pelo estímulo
que eles oferecem à prática das virtudes,
de tal maneira que o estudante procure neles
não tanto a pomposidade ou a arte das palavras,
mas a beleza da verdade".

 
Didascalicon, V, 7

Eis algo que, na pedagogia vitorina, é de essencial importância.

Jesus promete, no Evangelho, como prêmio aos que seguirem os seus preceitos, que encontrarão a verdade e a verdade os libertará, ou tornará livres. Ao dizer isto, Jesus se referia à verdade que se alcança através do dom do Espírito Santo a que as Escrituras denominam de sabedoria, um objetivo elevadíssimo, ao qual se ordena todo o desenvolvimento da vida espiritual. O estudante, porém, que desejar chegar a tanto, deverá acostumar-se primeiro a deixar-se libertar continuamente através de verdades menores. Consideremos, pois, primeiramente, do que libertam estas verdades menores.

Na vida humana o desenvolvimento da vida do intelecto é sempre precedido pelo desenvolvimento da vida dos sentidos, e é só gradualmente que se uma se emancipa à outra. Mesmo assim, porém, isto só ocorre com naturalidade quando a vida das virtudes e da inteligência se inicia precocemente e bem, algo raramente observado nos dias de hoje. Quando não é este o caso, o homem desenvolve uma visão do mundo que partirá de uma apreciação fortemente baseada nos sentidos, cujos critérios de validade serão a servilidade na imitação dos costumes sociais e a força das paixões e não a evidência da verdade. Nestas condições, o desenvolvimento da inteligência será orientado para que esta sirva de instrumento para a vida dos sentidos e das paixões.

No Eclesiástico pode-se ler:

"Assim como o Sol resplandecente
ilumina todas as coisas,
assim da glória do Senhor
estão cheias as suas obras".

 
Ecles. 43,16

A primeira parte desta sentença é evidente para todos, em qualquer época e lugar. Já a segunda será percebida com naturalidade, mas de forma gradual e com força sempre crescente, naqueles em que a virtude e a inteligência se iniciaram desde cedo, assim que se tiverem apresentado as primeiras possibilidades de o fazerem; para as demais pessoas, a segunda parte da sentença do Eclesiástico pouca coisa significará além de uma simples poesia que se esquece após ter sido ouvida. Por mais que os primeiros tentem explicar aos segundos que algo de verdadeiramente extraordinário nos está sendo apontado na segunda parte desta passagem do Eclesiastes, eles não conseguirão entender a razão para tanto entusiasmo. Embora freqüentemente eles próprios não se dêem conta deste fato, as psicologias de ambos estes grupos de homens foram construídas de um modo estruturalmente diverso e é por isso que o Eclesiastes também nos diz a este respeito:

"Os perversos dificultosamente se corrigem,
e o número dos insensatos é infinito;
se a árvore cair para a parte do meio dia,
ou para a do norte,
em qualquer lugar onde cair,
aí ficará".

 
Ec. 1,14; 9,3

Deve-se considerar, além disso, que mesmo para os homens de ambos os casos, a mensagem contida na Revelação estará sempre situada num plano extraordinariamente mais elevado do que aquele em que os homens costumam colocar-se. A este respeito nos diz, de fato, o profeta Isaías:

"Os meus pensamentos não são
os vossos pensamentos,
nem os meus caminhos são
os vossos caminhos,
diz o Senhor.

Quanto o céu sobe em elevação à terra,
tanto se elevam os meus caminhos
acima dos vossos,
e os meus pensamentos
acima dos vossos".

 
Is. 55,8-9

Esta é a razão por que todos aqueles que se dedicam ao estudo da Ciência Sagrada se deparam constantemente com uma visão do mundo que difere enormemente de suas opiniões e pontos de vista pessoais. Ainda que se tratem das melhores pessoas, elas encontram incessantemente neste estudo a proposta de vivência de virtudes e apresentação de verdades que estarão em conflito com os seus pequenos pontos de vista pessoais. Se o estudo da Ciência Sagrada é conduzido corretamente isto não será uma ocorrência fortuita, mas algo que deverá acontecer continuamente, pois esta é precisamente uma das justificações para a sua existência.

O que fazer, porém, quando nos encontrarmos diante de um evento como este? Admirar a beleza da verdade apreendida não será suficiente; será necessário renunciar decididamente aos nossos próprios pontos de vista, que freqüentemente representam o atrelamento da inteligência à vida das paixões, libertando-a para habituá-la a seguir mais docilmente a evidência da verdade. A menos que estejamos dispostos a isto estaremos estudando, no dizer de Hugo de São Vitor, apenas pela "beleza do fraseado e pela arte das palavras" e não "pela prática das virtudes e pela busca da verdade".

Deve-se considerar, ademais, que há um motivo mais específico pelo qual nesta passagem do Didascalicon Hugo de São Vitor se referiu aos alunos que buscam no estudo a beleza do fraseado e a arte das palavras como sendo aqueles que se desviaram da verdadeira meta. É que em sua época, assim como em todo o mundo antigo, o principal desvio da educação se manifestou sob a forma da educação retórica, a qual deu origem, durante a Renascença, à educação que hoje se conhece como humanista, em que o aluno estudava para alcançar uma bagagem razoável de cultura geral através da qual adquiriria boas maneiras e a capacidade de escrever e falar corretamente e bem. A expressão de Hugo de São Vitor, ao dizer que estes alunos se aproximavam da escola já com a idéia preconcebida de que ali estavam para buscar "a beleza do fraseado e a arte das palavras" descreve perfeitamente a atitude fundamental que à época norteava a muitos em seus estudos. Hoje em dia não percebemos mais a força que estas poucas palavras de Hugo tinham porque o principal desvio da educação consiste em estudar com a finalidade de aprender alguma profissão ou técnica com a qual pode-se conseguir, ou não, um retorno financeiro. Este, na ótica da pedagogia vitorina, é um desvio ainda mais grave e ao qual só pode ter-se chegado por ter-se passado primeiro pelo anterior sem que se tivesse percebido suficientemente toda a gravidade do que estava ocorrendo.

Para Hugo de São Vitor o que o estudante deve procurar com o estudo é o libertar-se, através da busca da verdade, da estreita visão de mundo que lhe é imposta pela vida das paixões e de que vive tanto ele como a sociedade à qual ele imita. Estas coisas aprisionam a inteligência e não lhe permitem seguir a luz da graça e a própria evidência de uma verdade que deveria, à medida em que é buscada, tornar-se cada vez mais radiante.

 

e) Método.

 

"Aquele que diante de uma multidão
de livros não guarda o modo e a
ordem da leitura",

continua Hugo de São Vitor,

"como que andando em círculos no meio
de uma densa floresta, perde-se do reto caminho.
É de pessoas assim que a Sagrada Escritura diz
que estão sempre aprendendo, mas nunca
chegam ao conhecimento da verdade".

 
Didascalicon V, 5

 

 

f) Nunca abandonar as boas obras.

 

"Saiba o estudante que não chegará
ao seu propósito se se dedicar de tal maneira
apenas ao estudo que se veja
obrigado a abandonar as boas obras".

 
Didascalicon V, 7

 

 

g) O estudo deve ser um deleite.

 

"Saiba também que não chegará
ao seu propósito se,
movido por um vão desejo de ciência,
dedicar-se às escrituras obscuras
e de profunda inteligência,
nas quais a alma mais se preocupa
do que se edifica.
Para o filósofo cristão
o estudo deve ser uma exortação,
e não uma preocupação;
deve alimentar os bons desejos,
e não secá-los.
Como gostaria de mostrar
àqueles que se puseram ao estudo por amor da virtude,
e não das letras,
o quanto é importante para eles
que o estudo não lhes seja ocasião de aflição,
mas de deleite.
Quem , de fato, estuda as Escrituras como preocupação
e, por assim dizer,
as estuda para aflição do espírito,
não é filósofo, mas negociante,
e dificilmente uma intenção
tão veemente e indiscreta
poderá estar isenta de soberba.
Deve-se considerar também que o estudo
de duas maneiras costuma afligir o espírito,
a saber, pela qualidade,
se se tratar de um material muito obscuro,
e pela sua quantidade,
se houver demais para estudar.
Em ambos estes casos deve-se utilizar de grande moderação,
para que não aconteça
que aquilo que é buscado como uma refeição
venha a ser utilizado para sufocar-nos.
Há aqueles que tudo querem estudar;
tu não contendas com eles,
seja-te suficiente a ti mesmo:
que nada te importe
se não tiveres lido todos os livros.
O número de livros é infinito,
não queiras seguir o infinito.
Onde não existe o fim, não pode haver repouso;
onde não há repouso, não há paz;
e onde não há paz, Deus não pode habitar".

 
Didascalicon V, 7

 

 

h) O que estudar.

 

Eis uma questão impossível de se responder inteiramente em poucas páginas. Segundo Hugo de São Vítor, o estudo deve conduzir à aquisição da Ciência Sagrada, através da qual o aluno possa conduzir-se, por sua vez, no caminho da virtude e da contemplação. Surge então a questão de o que, segundo este modo de se entender o estudo, deve- se estudar ou deixar de estudar.

A primeira resposta que encontramos nos escritos de Hugo de São Vitor a este respeito é que se deve estudar tudo, sem desprezar nada. Uma afirmação como esta pode parecer, num primeiro exame, um despropósito, mas Hugo, neste ponto, foi bastante claro. Segundo ele nos explicou no início do Opúsculo sobre o Modo de Aprender, o aluno que despreza de antemão qualquer forma de conhecimento, o aluno que "tem como vil alguma ciência ou alguma escritura", mostra não possuir com isto a virtude da humildade, e a humildade é, segundo Hugo, "o princípio de todo o aprendizado". E no sexto livro do Didascalicon ele vai ainda mais longe; ali ele nos diz o seguinte:

"Eu ouso afirmar que nunca desprezei
nada que pertencesse ao estudo;
ao contrário,
freqüentemente aprendi muitas coisas que outros
as tomariam por frívolas ou mesmo ridículas.
Algumas destas coisas foram pueris,
é verdade; todavia, não foram inúteis.
Não digo isto para jactar-me de minha ciência,
mas para mostrar que o homem que prossegue melhor
é o que prossegue com ordem,
não o homem que, querendo dar um grande salto,
se atira no precipício.
Assim como as virtudes,
assim também as ciências tem os seus degraus.
É certo, tu poderias replicar:

`Mas há coisas que
não me parecem ser de utilidade.
Por que eu deveria manter-me
ocupado com elas?'

Bem o disseste.
Há muitas coisas que,
consideradas em si mesmas,
parecem não ter valor
para que se as procurem.
Mas, se consideradas
à luz das outras que as acompanham,
e pesadas em todo o seu contexto,
verifica-se que sem elas
as outras não poderão ser compreendidas
em um só todo, e,
portanto, de forma alguma
devem ser desprezadas.
Aprende a todas,
verás que nada te será supérfluo.
Uma ciência resumida não é uma coisa agradável".

Se este texto do Didascalicon é claro ao afirmar que o estudo não deve excluir de seu interesse nenhuma forma de conhecimento, ele não é porém menos claro ao explicar as razões pelas quais se recomenda tal preceito. Hugo quer que o aluno nada exclua de seu interesse para com isto aprender a buscar metodicamente a integridade do conhecimento que é um todo ordenado cujas partes principais não podem ser compreendidas em um só conjunto sem o concurso das partes secundárias. Se o estudante, portanto, não deve desprezar nenhuma forma de conhecimento, isto não significa que deve aplicar-se a todas por igual ou preferir umas às outras sem critério. Indubitavelmente, segundo Hugo de São Vitor, a parte principal do estudo é o conhecimento das Sagradas Escrituras e da Ciência Sagrada que dela deriva.

O que, porém, e como deve ser estudado para se alcançar o conhecimento desta Ciência Sagrada é algo que não é possível de ser respondido nas poucas páginas deste texto. Há, entretanto, pelo menos um critério tão importante que não pode deixar de ser aqui mencionado. Pelas explicações e pelos exemplos dados por Hugo de São Vítor, depreende-se que, independentemente da questão do conteúdo do estudo, ele deve ser conduzido preferencialmente através dos textos cujos autores escreveram manifestamente sob a influência dos dons de entendimento e sabedoria, e que são, em geral, os escritos dos teólogos que também foram santos. A razão desta exigência consiste em que, conforme já havíamos apontado, o estudo deve ordenar-se, como ao seu fim último, à contemplação. Chama-se contemplação àquela operação da alma que surge no homem quando, sob a influência dos dons do Espírito Santo de entendimento e de sabedoria, a uma fé firme, constante e pura se acrescenta uma caridade intensa. Quando o homem consegue viver as virtudes teologais num grau tão alto a ponto de poder elevar-se à contemplação, esta se torna um dos principais meios de santificação para o homem. As obras dos teólogos em que se manifesta a influência do dom de entendimento ou do dom de entendimento elevado pelo dom de sabedoria são obras que derivam, portanto, do próprio exercício da vida contemplativa. "Elas são doces e repletas de amor pela vida eterna", diz Hugo de São Vitor no quinto livro do Didascalicon. O convívio do aluno com elas, ao contrário das demais obras, ainda que tratem dos mesmos assuntos, habitua-o gradativamente a perceber que elas têm uma origem diversa dos livros comuns e acaba por auxiliá-lo a conduzir-se na busca da contemplação. Ora, é justamente este o fim a que se ordena o estudo, e é por isto que as próprias Sagradas Escrituras já distingüiam entre estes e os demais livros:

"As palavras dos sábios",

diz o Eclesiastes,

"são como aguilhões,
e como cravos fixados no alto,
que por meio do conselho dos Mestres
nos foram comunicadas pelo único Pastor.

Não busques, pois,
meu filho,
mais alguma coisa além destes.

Não se põe termo
em multiplicar livros,
e a meditação freqüente
é aflição da carne".

 
Ecl. 12, 11-12

 

 

i) Estudar com o propósito de ensinar.

 

Eis algo que, tanto quanto sabemos, Hugo não ensinou por escrito, mas o fêz mais do que manifestamente pelo exemplo. Aqueles que estudam para um dia poderem ensinar, seguindo o preceito de Cristo, são os que encontrarão a inspiração do Espírito Santo. E foi a aqueles a quem Jesus acabava de pedir que ensinassem que Ele também prometeu que permaneceria com eles até o fim dos tempos (Mat 28,20).

 

j) Aspirar às coisas mais altas.

 

"O que eu mais desejo",

termina aqui Hugo de São Vitor,

"é mostrar como aqueles
que de boa vontade se dedicam
ao aprender são dignos de louvor.
É necessário, porém,
e tarefa de grande importância,
prevenir aos eruditos para que não ocorra
que talvez voltem os seus olhos
para aquilo que ficou para trás
e consolar aos principiantes
se às vezes desejam já chegar
onde aqueles estão.
Nosso propósito deverá ser, portanto,
o de subir sempre.
Roguemos, pois, à sabedoria,
para que se digne resplandecer em nossos corações
e iluminar-nos em seus caminhos
para introduzir-nos naquele banquete
puro e sem animalidade".

 
Didascalicon V,8-9;VI,13

 

 

 

 

 
São Paulo, 15 de outubro de 1994


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